Enegrecendo o Museu do Louvre : Beyoncé, Jay Z e os Legados da escravidão


O vídeo da música Apes**t de Beyoncé e Jay Z reanima o diálogo sobre a escravidão e seus legados. A música é parte do novo álbum conjunto do casal Carter. Longe dos Estados Unidos, os Carters ocuparam o Museu do Louvre, um dos mais importantes museus de arte do mundo e sem dúvida um dos maiores símbolos da alta cultura branca, trazendo à tona a discussão da persistente herança presente do comércio atlântico de escravos.

O palco para essa performance Apes**t foi cuidadosamente escolhido. O Museu do Louvre foi criado no final do século XVIII durante o ápice do comércio atlântico de africanos escravizados. Esse também foi um período turbulento da história da França. A Revolução francesa varreu a monarquia, espalhando mudança através do mundo atlântico.

Concebido para abrigar as coleções reais francesas, o Louvre mostrava pinturas produzidas por artistas europeus. Desde sua criação, seus visitantes eram membros da elite francesa. Suas galerias expunham trabalhos de artistas célebres. Muito poucos personagens negros eram retratados em pinturas expostas nas paredes do Louvre. É claro que ainda hoje, artistas negros raramente tem seus trabalhos expostos no Louvre. O video Apes**ts coloca esse sistema de cabeça para baixo. Apropriando o icônico museu ocidental, o vídeo dialoga com a famosa cena do filme da Marvel Pantera Negra, quando Killmonger revindica um artefato do reino de Wakanda exposto em uma vitrine de um grande museu ocidental fictício. Intentionalmente ou não (isso não importa) através do trabalho do diretor do vído, Beyoncé e Jay Z acenam para as ações de grupos americanos de ativistas tal como o Descolonize esse lugar.

A cena de abertura Apes**t mostra os Carters posando na frente de um dos grandes ícones da arte ocidental, a Monalisa (1503) de Leonardo da Vinci. Na realidade, nenhum visitante comum do Museu do Louvre pode ficar de pé sozinho na frente desse quadro, sempre rodeado de multidões de turistas famintos, apontando as câmeras de seus telefones celulares para capturar a melhor imagem. Beyoncé e Jay Z são os observadores privilegiados nesse ambiente, posição confirmada pela letra da música que diz: “I can’t believe we made it (Eu não acredito que eu consegui), This is what we’re thankful for (Isto é a que somos gratos.”

Com seus corpos monumentais, filmados em contre-plongé no alto de uma escadaria de mármore do Louvre, o casal Carter e um grupo de dançarinas negras usando malhas da cor da pele dançam na frente Vitória de Samotrácia (190 BC). Os Carters e os dançarinas negras conquistam um espaço que não foi concebido para ser ocupado por personagens negros. Apesar disso, às vezes esses corpos são vivos e se movem, outras vezes eles parecem imóveis, como cadáveres.

Evocando vida e morte, uma das primiras cenas de Apes**t mostra anjos barrocos e renascentistas decorando o teto do Louvre, enquanto do lado de fora do prédio, um anjo negro muito humano aparece agachado no chão. Apes**t comemora o sucesso afro-americano, mas ao mesmo tempo o vídeo zomba do significado da riqueza material e da distinção simbólica (tão bem incorporados pelo casal Carter) em um mundo onde homens e mulheres negras são vítimas diárias do racismo letal.

O vídeo retorna algumas vezes ao motivo da maternidade negra. Uma das cenas mostra detalhes da pintura Pietá (1537-1540) do artista italiano Rosso Fiorentino (1494-1540), associando os corpos de jovens negros com o sofrimento do corpo do Cristo crucificado, motivo que mais tarde, principalmente no século XIX, aparece em vários trabalhos representando a escravidão.

Apes**t continua com várias referências à escravidão e ao tráfico atlântico de escravizados. E Napoléon Bonaparte não é estranho a essa trágica história. A tormenta da Revoluçao Francesa impulsionou a Revolução de Saint-Domingue (1792-1804) que naquela época era a mais rica colônia francesa nas Américas. A insurreição liderada por escravos e ex-escravos forçou a Convenção Francesa a abolir a escravidão em 1794. Mas a liberdade durou pouco.

 

Em 1799, Napoleão Bonaparte liderou um golpe de estado, tornando-se primeiro cônsul. As conexões entre Bonaparte e a escravidão são claras: em 1802, ele restabeleceu a escravidão nas colônias francesas. A Revolução de Saint-Domingue acabou por ser bem sucedida. Em 1804, os rebeldes aboliram a escravidão na colônia e fizeram dela a primeira nação negra independente, agora chamada Haiti. No final daquele ano, Bonaparte coroou a si mesmo imperador, tornando-se Napoleão I. Apes**t mostra a tela A Coroação de Napoleão (Le Sacre de Napoléon) (1805-1807) do famoso pintor francês neoclássico Jacques Louis David (1748-1825). A pintura representa a cerimônia de coroação, também destacando a imperatriz Josefina. Mesmo se a era napoleônica terminou em 1815, a escravidão continuou viva nas colônias francesas até 1848.

 

Dançando na frente da pintura de David, a Rainha Bey e sua equipe de artistas agora fazem parte desta pintura. Ao conquistar a Europa e o Louvre, Beyoncé e Jay Z colocam-se na mesma linhagem de homens e mulheres negros e negras que lutaram pela liberdade em Saint-Domingue, e que se tornaram reis e rainhas, tais como Henry Christophe (1767-1820), coroado Rei Henry I e sua esposa Marie-Louise Coidavid (1778-1851). O casal Carter também flerta com o Afrocentrismo. Eles posam com Grande Esfinge de Tanis (ca. 2600 BC), uma escultura gigante associada com os faraós Ammemes II (12a dinastia, 1929-1895 AC), Mernpetah (19a dinastia, 1212-02 AC) e Shoshenq I (22a dinastia, 945-24 AC). Assumindo uma postura afrocêntrica, os Carters se conectam ao berço da civilização (negra). Eles são como imperadores negros da cultura popular mundial atuando no templo da alta cultura branca.

Apes**t também dialoga com o passado escravista ao mostrar outras duas pinturas francesas.

A primeira pintura A Balsa da Medusa(Le Rafle de la Méduse) (1819) de Théodore Géricault (1791-1824). Um ícone do romantismo francês, a pintura retrata o naufrágio da fragata francesa Medusa, ocorrido em 1816, logo após a restauração da dinastia Bourbon, que se seguiu à queda de Napoleão. A Medusa foi enviada ao Senegal para confirmar a autoridade do rei Luís XVIII sobre a colônia recém cedida à França. Transportando 392 homens a bordo, o navio naufragou na costa senegalesa. A tragédia aconteceu durante o período do comércio ilegal de escravos nesta parte da costa da África Ocidental. Durante treze dias, seus passageiros lutaram para sobreviver. A pintura dramática retrata um pequeno grupo de sobreviventes em uma jangada. Entre eles, três personagens negros se destacam na composição. A pintura de Géricault é considerada um manifesto pela abolição da escravidão quando a instituição ainda existia nas colônias francesas nas Américas e na África.

 

O vídeo também mostra outra pinturaRetrato de uma negra (Portrait d’une Négresse) (1800) de Marie-Guillemine Benoist (1768-1826), uma aluna de David. A pintura está entre as poucas pinturas francesas que retratam uma mulher negra como personagem principal. Em um período em que poucas mulheres eram artistas bem estabelecidas, o retrato pintado também está entre as poucas obras de autoria de uma mulher que chegou ao Louvre. Sem nome, a modelo provavelmente era uma empregada doméstica. Embora o seio nu evoque uma imagem exótica da feminilidade negra, a modelo veste roupas finas e é retratada em uma posição digna.

Apes**t constrata grandemente com o recente vídeo da música song This is America de Donald Glover (alias Childish Gambino). Ao contrário de Glover, os Carters optaram por enfatizar o esplendor negro, optaram por mostrar os legados da escravidão através da beleza dramática dos corpos negros, mortos ou vivos. Ao ocupar o Louvre, eles traçam uma linha entre a ausência de sujeitos negros nas instituições de pintura e arte ocidentais e a persistente violência racial que persiste não apenas os Estados Unidos, mas também na França e em outras áreas da diáspora africana. Para completar esse projeto os criadores do vídeo escolheram o Museu do Louvre e isso é muito significativo. No contexto dos EUA, a França e a arte francesa permanecem símbolos de alta cultura e sofisticação. Para muitos afro-americanos, a escravidão e o racismo parecem estar longe da realidade da França. Mas enquanto o casal Carter mergulhava nas coleções do Louvre, a escravidão e a questão racial ressurgiram novamente. No entanto, de agora em diante, os espaços brancos, como o Louvre, não podem mais sobreviver sem reconhecer o quanto devem aos corpos negros e marrons que lhes permitiram existir.

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About Ana Lucia Araujo

I am a cultural historian of Latin America and the Atlantic World. I am Full Professor in the Department of History at Howard University. My work explores the history and the memory of the Atlantic slave trade and slavery and their social and cultural legacies. I am particularly interested in the public memory, heritage, and visual culture of slavery. To know more about my research and publications, visit my personal website or my webpage at Howard University.